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sexta-feira, 20 de outubro de 2017

O Bar

Prompt  – Você e seu pior inimigo são imortais. Vocês lutaram quando crianças, lutaram um contra o outro em guerras, até concorreram um contra o outro em partidos políticos. Um dia você esbarra com ele em um bar.

A cidade continuava agitada mesmo nas tardes horas da noite. O som dos carros, trens e pedestres podiam ser ouvidos a quilômetros de distancia. As calçadas lotadas tornavam difícil se locomover sem empurrar ninguém. A essa hora ninguém prestava atenção em nada, cansadas de um dia longo de trabalho, e desejando apenas o conforto de seus lares, as pessoas mal prestavam atenção ao seu redor. Aparentemente isso nunca iria mudar. Elas se sentiriam melhores se soubessem que isso também acontecia no grandioso Império Romano? Não, provavelmente não.
Essa noite a imortalidade trazia um peso a mais: o cansaço. O corpo doía e se movia com lerdeza, os ombros encurvados ante o peso de tantos anos e o esforço constante para não suspirar a cada lenta respiração. O puro e simples cansaço. Seus pés conheciam tão bem esse caminho que ele nem precisava pensar para onde ia. Algumas ruas e trombadas depois  as velhas, enferrujadas e maravilhosas portas do bar surgiram. Parou diante delas, respirou fundo, suspirou e entrou.
O barulho do tráfego e dos pedestres cessou quase que imediatamente quando as portas do bar se fecharam. Bar talvez fosse uma palavra muito forte, na verdade estava mais para um boteco meia boca. No entanto, era limpo e é isso que importa. O assoalho de madeira estava desgastado e lascado em alguns pontos, o teto não tinha forro, as vigas de madeira e a fiação ficavam a mostra. Ainda assim não havia sequer um buraco no teto. As mesas e mesinhas, em sua maioria desocupadas, se espalhavam pelo bar. Os únicos sons audíveis eram o bater dos copos nas mesas e o The Steel Samurai que tocava de fundo em loop. Ah, o velho Jukebox sempre esteve em ótimas condições.
A meia dúzia de pessoas que ocupavam as mesinhas exibia a mesma aura de cansaço, os olhos baixados para os copos em sua frente, cada uma delas separadas por no mínimo três mesas umas das outras, sem um pingo de vontade de conversar, cada uma remoendo seus próprios problemas e demônios. Esse era o diferencial desse boteco. Esse era o lugar para se isolar da cidade e até mesmo daqueles que sentavam ao seu lado. Ninguém ali iria lhe incomodar. Cada um com seu copo.
O homem contornou o labirinto de mesas em direção aos bancos altos em frente ao bar. O dono do bar era meio caduco e parecia não reparar no homem que ocupava o mesmo banco há quarenta anos sem nunca envelhecer sequer um dia. O senhor o olhou com um ar interrogativo.
-Um duplo – disse o homem.
Apesar da idade e do aparente problema mental o dono do bar era rápido e efetivo, nunca demorando a atender quaisquer fossem os pedidos. O senhor entregou o copo e o homem entornou tudo em um gole só, batendo o copo no tampo da mesa se juntando a orquestra de copos.
-Outro – pediu o homem.
-Dia difícil, camarada? – comentou uma pessoa à sua esquerda.
O homem bufou secamente, aparentemente era alguém novo ali que não conhecia as regras silenciosas do bar. Ao se virar para responder, as palavras ficaram presas em sua garganta ao ver quem era. Uma tonelada de lembranças invadiu sua cabeça, todas elas eram de lutas e discussões.  O rosto que ele conhecia tão bem quando o próprio transmitia a mesma aura de cansaço presente nos outros ocupantes do bar.
-Você!? – disse o homem.
O outro homem havia feito o comentário sem tirar os olhos do seu próprio copo, mas ao ouvir o tom de voz da resposta se virou rapidamente e teve a mesma reação.
-Não acredito nisso- disse o outro homem, com os olhos arregalados.
Os dois homens se encaram, totalmente surpresos. Quanta ironia do destino fazer dois inimigos imortais se encontrarem assim em um bar qualquer em uma cidade qualquer. Quanto tempo havia se passado desde a última vez que se enfrentaram? Dez anos? Seis meses? Foi nas eleições para deputado ou na guerra? Depois de tantos anos e tantas disputas era difícil se lembrar com exatidão de cada acontecimento.
Depois de algum tempo os dois homens riram amargamente e tomaram suas bebidas. Cada um pediu outra dose com apenas um sinal. O homem olhou para o outro, ainda surpreso por encontra-lo em um lugar como esse e com uma aparência tão cansada.
-A última vez que te vi tão cansado assim os franceses estavam decapitando os nobres-  disse ele com desdém.
-Ha, quem imaginaria que aqueles plebeus estariam tão putos com os nobres – respondeu o outro homem enquanto suas bebidas chegavam – a ultima vez que eu te vi tão cansado assim as pirâmides ainda nem estavam prontas!
Os dois homens conversavam em voz baixa, sem nunca olhar um para o outro. Fitavam apenas o fundo de seus copos. Mais uma rodada de bebidas, mais comentários. Outra rodada. Outro comentário.  Rodada. Comentário. Rodada... Comentário...
Eles continuaram assim até o bar ficar completamente vazio. Então os comentários eram feitos em voz alta. Comentários. Rodada.
Os dois homens só pararam quando o dono do bar anunciou que iria fechar. Em completo silencio deixaram o dinheiro no balcão e  cambalearam em direção à porta. Colocaram seus casacos e saíram para a noite fria e barulhenta da cidade. Sem dizer uma palavra viraram em direções opostas e cada um seguiu seu caminho. Tão cansados quanto estavam quando chegaram. Na verdade, um observador atento notaria que seus ombros estavam levemente mais eretos, suas cabeças não tão baixas e os suspiros menos frequentes.

A cidade continuava agitada mesmo nas horas que precedem o amanhecer. O som dos carros, trens e pedestres podiam ser ouvidos a quilômetros de distancia. As calçadas lotadas tornavam difícil se locomover sem empurrar ninguém. Há essa hora ninguém prestava atenção em nada, cansadas de uma noite mal dormida e desejando apenas o conforto de seus lares, as pessoas mal prestavam atenção ao seu redor, todas a caminho de seus trabalhos. Aparentemente isso nunca iria mudar. Elas se sentiriam melhores se soubessem que isso também acontecia na Inglaterra da Revolução Industrial? Não, provavelmente não.




Prompt retirada de http://writing-prompt-s.tumblr.com/post/148413174451/you-and-your-worst-enemy-are-immortal-you-got 

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