Prompt – Você e
seu pior inimigo são imortais. Vocês lutaram quando crianças, lutaram um contra
o outro em guerras, até concorreram um contra o outro em partidos políticos. Um
dia você esbarra com ele em um bar.
A cidade continuava agitada mesmo
nas tardes horas da noite. O som dos carros, trens e pedestres podiam ser
ouvidos a quilômetros de distancia. As calçadas lotadas tornavam difícil se
locomover sem empurrar ninguém. A essa hora ninguém prestava atenção em nada,
cansadas de um dia longo de trabalho, e desejando apenas o conforto de seus
lares, as pessoas mal prestavam atenção ao seu redor. Aparentemente isso nunca
iria mudar. Elas se sentiriam melhores se soubessem que isso também acontecia
no grandioso Império Romano? Não, provavelmente não.
Essa noite a imortalidade trazia
um peso a mais: o cansaço. O corpo doía e se movia com lerdeza, os ombros
encurvados ante o peso de tantos anos e o esforço constante para não suspirar a
cada lenta respiração. O puro e simples cansaço. Seus pés conheciam tão bem
esse caminho que ele nem precisava pensar para onde ia. Algumas ruas e
trombadas depois as velhas, enferrujadas
e maravilhosas portas do bar surgiram. Parou diante delas, respirou fundo,
suspirou e entrou.
O barulho do tráfego e dos
pedestres cessou quase que imediatamente quando as portas do bar se fecharam.
Bar talvez fosse uma palavra muito forte, na verdade estava mais para um boteco
meia boca. No entanto, era limpo e é isso que importa. O assoalho de madeira
estava desgastado e lascado em alguns pontos, o teto não tinha forro, as vigas
de madeira e a fiação ficavam a mostra. Ainda assim não havia sequer um buraco
no teto. As mesas e mesinhas, em sua maioria desocupadas, se espalhavam pelo
bar. Os únicos sons audíveis eram o bater dos copos nas mesas e o The Steel Samurai que
tocava de fundo em loop. Ah, o velho Jukebox sempre esteve em ótimas condições.
A meia dúzia de pessoas que
ocupavam as mesinhas exibia a mesma aura de cansaço, os olhos baixados para os
copos em sua frente, cada uma delas separadas por no mínimo três mesas umas das
outras, sem um pingo de vontade de conversar, cada uma remoendo seus próprios
problemas e demônios. Esse era o diferencial desse boteco. Esse era o lugar
para se isolar da cidade e até mesmo daqueles que sentavam ao seu lado. Ninguém
ali iria lhe incomodar. Cada um com seu copo.
O homem contornou o labirinto de
mesas em direção aos bancos altos em frente ao bar. O dono do bar era meio
caduco e parecia não reparar no homem que ocupava o mesmo banco há quarenta
anos sem nunca envelhecer sequer um dia. O senhor o olhou com um ar
interrogativo.
-Um duplo – disse o homem.
Apesar da idade e do aparente
problema mental o dono do bar era rápido e efetivo, nunca demorando a atender
quaisquer fossem os pedidos. O senhor entregou o copo e o homem entornou tudo
em um gole só, batendo o copo no tampo da mesa se juntando a orquestra de
copos.
-Outro – pediu o homem.
-Dia difícil, camarada? – comentou
uma pessoa à sua esquerda.
O homem bufou secamente,
aparentemente era alguém novo ali que não conhecia as regras silenciosas do
bar. Ao se virar para responder, as palavras ficaram presas em sua garganta ao
ver quem era. Uma tonelada de lembranças invadiu sua cabeça, todas elas eram de
lutas e discussões. O rosto que ele
conhecia tão bem quando o próprio transmitia a mesma aura de cansaço presente
nos outros ocupantes do bar.
-Você!? – disse o homem.
O outro homem havia feito o
comentário sem tirar os olhos do seu próprio copo, mas ao ouvir o tom de voz da
resposta se virou rapidamente e teve a mesma reação.
-Não acredito nisso- disse o
outro homem, com os olhos arregalados.
Os dois homens se encaram,
totalmente surpresos. Quanta ironia do destino fazer dois inimigos imortais se
encontrarem assim em um bar qualquer em uma cidade qualquer. Quanto tempo havia
se passado desde a última vez que se enfrentaram? Dez anos? Seis meses? Foi nas
eleições para deputado ou na guerra? Depois de tantos anos e tantas disputas
era difícil se lembrar com exatidão de cada acontecimento.
Depois de algum tempo os dois
homens riram amargamente e tomaram suas bebidas. Cada um pediu outra dose com
apenas um sinal. O homem olhou para o outro, ainda surpreso por encontra-lo em
um lugar como esse e com uma aparência tão cansada.
-A última vez que te vi tão
cansado assim os franceses estavam decapitando os nobres- disse ele com desdém.
-Ha, quem imaginaria que aqueles
plebeus estariam tão putos com os nobres – respondeu o outro homem enquanto
suas bebidas chegavam – a ultima vez que eu te vi tão cansado assim as
pirâmides ainda nem estavam prontas!
Os dois homens conversavam em voz
baixa, sem nunca olhar um para o outro. Fitavam apenas o fundo de seus copos.
Mais uma rodada de bebidas, mais comentários. Outra rodada. Outro
comentário. Rodada. Comentário.
Rodada... Comentário...
Eles continuaram assim até o bar
ficar completamente vazio. Então os comentários eram feitos em voz alta.
Comentários. Rodada.
Os dois homens só pararam quando
o dono do bar anunciou que iria fechar. Em completo silencio deixaram o
dinheiro no balcão e cambalearam em
direção à porta. Colocaram seus casacos e saíram para a noite fria e barulhenta
da cidade. Sem dizer uma palavra viraram em direções opostas e cada um seguiu
seu caminho. Tão cansados quanto estavam quando chegaram. Na verdade, um
observador atento notaria que seus ombros estavam levemente mais eretos, suas
cabeças não tão baixas e os suspiros menos frequentes.
A cidade continuava agitada mesmo
nas horas que precedem o amanhecer. O som dos carros, trens e pedestres podiam
ser ouvidos a quilômetros de distancia. As calçadas lotadas tornavam difícil se
locomover sem empurrar ninguém. Há essa hora ninguém prestava atenção em nada,
cansadas de uma noite mal dormida e desejando apenas o conforto de seus lares,
as pessoas mal prestavam atenção ao seu redor, todas a caminho de seus
trabalhos. Aparentemente isso nunca iria mudar. Elas se sentiriam melhores se
soubessem que isso também acontecia na Inglaterra da Revolução Industrial? Não,
provavelmente não.
Prompt retirada de http://writing-prompt-s.tumblr.com/post/148413174451/you-and-your-worst-enemy-are-immortal-you-got
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