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segunda-feira, 23 de outubro de 2017

A voz que vem de cima

Prompt - Você grita algo para os céus. Para sua surpresa, uma voz vinda de cima responde.
Sexta-feira 20h: 00min Rafael finalmente chega em casa depois de mais uma tortuosa semana de trabalho. Rafael estava cansado, entediado e irritado. Irritado com seu trabalho entediante, sua rotina entediante e sua vida entediante.
Entrou em sua casa minúscula, atirou a pasta em um canto e se jogou na cama. Ficou deitado por um bom tempo até que seu estomago protestou contra a falta de comida que andava recebendo. Mais se arrastou do que caminhou até a cozinha e abriu a geladeira praticamente vazia exceto por uma garrafa d’gua e um ovo. Abriu o armário e pegou o ultimo pacote de miojo. Encheu a panela com agua e levou ao fogão. Em um momento de clareza e irritação Rafael percebeu que andara jantando miojo com ovo nos últimos vinte dias. Em um acesso de raiva ele pegou a panela cheia de agua quente, atropelou tudo em seu caminho até seu minúsculo quintal atrás de sua minúscula casa e atirou a panela no chão espirrando agua quente para todos os lados. Ergueu seus punhos para o nublado céu noturno e berrou:
-PORQUE A MINHA VIDA É TÃO ENTEDIANTE?
Nem meio segundo depois uma voz feminina vinda do céu respondeu:
-Ih cara, como é que eu vou saber? Já tentou adotar um cachorro?
Rafael ficou pasmo. Nunca fora muito religioso e não estava esperando uma resposta divina. Baixando lentamente seus braços  perguntou:
-D-Deus? É o Senhor?
Uma gargalhada irrompeu pela noite acompanhada de uma trovoada.
-Eita, ‘tá trovejando, era só o que me faltava. Olha, lamento te desapontar e tudo o mais, mas não sou nenhuma Deusa. ‘Tô só de passagem viu.
Rafael ficou confuso. As nuvens tampavam a lua e ele não conseguia ver de onde estava vindo a voz.
-Como assim? Onde você está?
-Tu é cego por acaso? Aqui ó, no balão.
Um feixe de luz surgiu no meio do nada e iluminava um rosto sorridente, depois iluminou parte de um grande balão azul escuro. Os olhos de Rafael brilharam de alegria.
-Um balão! Sempre quis voar em um desses.
-É mesmo? Tem espaço pra mais um se tiver interesse...
Rafael já ia responder que não queria, afinal havia sido outra longa semana de um trabalho enfadonho. No entanto, hesitou. Olhou para a panela aos seus pés, olhou para sua casa minúscula e seu quintal minúsculo.
-Você realmente está convidando alguém que nunca viu antes? Não acha que isso pode ser meio perigoso?
- Alguém que esbraveja para os céus o quanto sua vida é entediante e acha que Deus responderia a um grito desses realmente não apresenta perigo. Além do que eu sei cuidar de mim mesma.
Ele não sabia se via isso como uma ofensa ou não, então decidiu ignorar até mesmo pelo tom de deboche na voz da jovem.
- Tudo bem, eu aceito o convite.
A garota sorriu e seu rosto sumiu junto do feixe de luz da lanterna. Alguns instantes  depois a luz voltou e iluminava uma escada de corda. Rafael olhou para trás, respirou fundo e subiu. Ventava um pouco e a escada balançava assustadoramente fazendo com que Rafael demorasse a subir enquanto a garota ria aos montes na cesta.
Depois de um esforço hercúleo Rafael conseguiu subir até a cesta. A cesta era mais espaçosa do que ele imaginou, havia espaço suficiente para ele e a garota ficarem confortáveis mesmo com as mochilas e cobertores que ela trazia junto.
Agora que estava mais perto Rafael viu que a jovem deveria ter mais ou menos a sua idade. Ela deu um passo à frente e estendeu a mão.
-Muito prazer, meu nome é Barbara.
-Olá Bárbara, meu nome é Rafael... Então, para onde vamos?
-Uau, acabamos de nos conhecer e já está fazendo as grandes questões da vida? – respondeu ela com um sorriso debochado.
Outra trovoada interrompeu a resposta de Rafael. Bárbara se escorou na beirada da cesta e olhou preocupada para o céu.
- Espero que não chova forte se não nós vamos morrer – disse ela com um sorriso.
-Que? Como pode dizer isso com um sorriso no rosto? Nós vamos morrer!
-Que nada, eu tô cagada de medo. Só que esqueci de ver a previsão do tempo antes de sair, então agora já era – disse ela enquanto vasculhava suas mochilas - Quem sabe poderíamos gritar para o céu e ver se alguém responde novo, tenho quase certeza que eu tenho um megafone em algum lugar.
-Ha ha, como você é engraçada.
Bárbara continuou vasculhando suas mochilas então Rafael se escorou na cesta e observou a cidade abaixo. Ele percebeu que haviam ganhado altitude desde que subiu a bordo do balão. Estavam chegando à saída da pequena cidade. Rafael estava começando a se perder em seus pensamentos quando a voz de Bárbara o trouxe de volta.
-Achei!
Rafael se virou esperando ver o tal megafone e preparou uma resposta sarcástica que ficou presa em sua garganta ao ver a enorme sacola cheia de sanduiches  nas mãos de Bárbara.
- Meus Sanduiches Especiais! – cantarolou ela com um grande sorriso.
-oh, especiais - respondeu Rafael - O que tem neles?
-Minha mistura especial de mostarda marrom, requeijão e pimenta do reino.
- O que tem de especial nisso?
-É especial porque eu gosto, ué - respondeu ela como se isso fosse a  coisa mais óbvia do mundo.
- Eu já estava quase esquecendo que estou morto de fome - babou Rafael enquanto via a garota abrir a sacola e espalhar os sanduíches.
- Se ‘tava com tanta fome porque jogou a tua panela no chão? - brincou ela.
Rafael ignorou a pergunta e deu uma enorme mordida no sanduiche. A Mistura Especial era realmente muito boa, causava uma certa confusão agradável de sabores.
-Eu não achava que isso seria tão bom - disse Rafael com a boca cheia de pão - o que mais tem aqui?
- Queijo e mortadela.
-Hm, prefiro presunto - respondeu enquanto terminava seu sanduiche em duas mordidas.
-Eu não - respondeu Bárbara com um sorriso e um dar de ombros enquanto abocanhava seu sanduiche .
-Nossa! Cara! Isso aqui é espetacular!
-Eu sei! É a minha comida favorita, fazia tanto tempo que eu não comia. Qual a sua comida favorita? - perguntou Bárbara com o rosto todo sujo da Mistura Especial.
-É... eu não sei? - respondeu ele, confuso - faz tanto tempo que só como miojo e comidas congeladas, já nem lembrava o gosto de comida normal.
-Isso explica o lance da panela.
-Mas se eu tivesse que escolher agora, seria o seu Sanduiche Especial.
- Muito obrigada, meu sanduiche é incrível mesmo! Fique a vontade pra comer quantos quiser já que é só isso que vamos comer enquanto essa viagem durar.
Rafael parou com um sanduiche na metade do caminho até sua boca e olhou para Bárbara tentando ver se ela estava brincando ou não, mas decidiu apenas dar de ombros e aceitar.
-Tudo bem.
Depois de devorarem mais alguns sanduiches e tomarem um pouco de chá, Rafael e Bárbara decidiram dormir um pouco. Cada um se enrolou em um coberto e adormeceram rapidamente.


-ACORDA RAFAEL, VAI PERDER O NASCER DO SOL! ACORDA! ACORDA! ACORDA!
Rafael acordou assustado com a gritaria, parecia que não havia dormido nada.
-Levanta dai! - Bárbara puxou Rafael pelo braço.
-Tá tá, calma. To de pé já, o que quer que eu veja?
-O nascer do sol, cabeção.
Rafael olhou para o horizonte. Estava levemente mais claro que o resto do céu.
-Nem consigo lembrar a última vez que vi o sol nascer - disse Rafael com um leve sorriso.
- Eu também não - respondeu Bárbara.
Os dois ficaram em silêncio apenas observando o horizonte. O céu já não estava tão nublado e as últimas estrelas iam desaparecendo. O Sol continuava subindo tingindo o céu de diferentes tons de laranja.  Abaixo do balão estendiam-se grandes campos de plantações agora iluminados pelo sol depois de tantos dias nublados.
- É tão lindo...
-É...
- Nunca mais vou ficar tanto tempo sem ver o sol nascer. Obrigado por me acordar.
-Não há de que.
Os dois voltaram ao silencio, observando a paisagem que ia se desenrolando abaixo deles.  Campos de plantações, campos de gado. Planícies e pequenos grupos de árvores. Rios e riachos. Um bando de pássaros até os acompanhou por um tempo. Em alguns pontos ao leste era possível ver estradas com  alguns carros. Passaram até por um trilho de trem. Aviões e monomotores sobrevoavam o balão.


A tarde se aproximava do fim, Rafael e Bárbara estavam novamente comendo os Sanduiches Especiais.
- Então, para onde estamos indo? - Perguntou Rafael.
-Isso importa? Estamos indo. Quando chegarmos lá descobriremos onde é.
-Então estamos apenas indo?
-Apenas indo.
Rafael olhou para o horizonte onde o sol terminava de se pôr.
-É,  parece ser um bom lugar para ir.
Bárbara sorriu contente
-Eu sei.



A noite avançava e os dois estavam jogando carta.
-Bati! Ha! Finalmente ganhei uma - comemorou Bárbara com uma dancinha sentada.
Rafael fechou a cara.
-Eu ainda estou ganhando.
-É claro que sim, Senhor Entediado - debochou Bárbara dando tapinhas na cabeça de Rafael.
A garota se levantou e se espreguiçou.
-Olha-  disse ela- estamos chegando à uma cidade. E olha quantas luzes, deve ser uma cidade grande.
Rafael também se levantou  para olhar.
- Hoje o céu está limpo e estrelado, isso vai dar uma visão e tanto.
Bárbara entendeu o que ele quis dizer.
-Ah isso vai ser tão lindo! Vamos pegar um pouco de altitude.

Eles ganharam altitude e adentraram o espaço aéreo da cidade. Foram presenteados com uma bela visão.
-É tão lindo.
- É maravilhoso.
-A cidade parece até o mar-
-Refletindo as estrelas.
-É como se estivéssemos sobre um espelho.
-Eu... Eu não tenho palavras...
Rafael e Bárbara ficaram estupefatos admirando por horas  a beleza daquela paisagem. A cidade já estava ficando para trás.
-Ei, Bárbara?
-Sim?
-Acho que vou adotar um cachorro.




Prompt retirada de http://writing-prompt-s.tumblr.com/post/147645950191/you-shout-something-at-the-sky-to-your-surprise

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